A Fé Infantilizada: Por que o fanatismo é o refúgio perfeito para adultos imaturos?
- Ricardo C. Machado

- 14 de fev.
- 2 min de leitura

Quando olhamos para o fanatismo religioso — seja ele de qual vertente for —, vemos adultos gritando verdades absolutas, demonizando quem pensa diferente e seguindo cegamente líderes carismáticos. À primeira vista, parece excesso de fé. Mas, sob a lente da psicanálise, o que vemos é imaturidade emocional e medo da liberdade.
A correlação entre imaturidade e fanatismo é direta: o sujeito imaturo não suporta a angústia da dúvida e a responsabilidade da escolha. Muitas vezes, infelizmente, fé e fanatismo se misturam.
Os dilemas da vida adulta são terreno fértil para transformar fé em fanatismo
A vida adulta é complexa, ambígua e cheia de incertezas. Não existe um manual infalível para todas as situações, e muitas vezes temos que decidir no escuro, arcando com as consequências. Para uma psique infantilizada, essa liberdade é aterrorizante.
O fanatismo oferece a solução mágica: um mundo binário.
No universo do fanático, tudo é dividido entre "Bem" e "Mal", "Nós" e "Eles", "Santo" e "Pecador". Não há nuances, não há áreas cinzentas, não há complexidade. Para o adulto imaturo, isso é um alívio psíquico imenso. Ele não precisa pensar, ponderar ou se responsabilizar; ele só precisa obedecer.
Freud já apontava que a religião (em sua vertente neurótica) pode funcionar como uma regressão à infância. O fiel busca na figura de Deus (ou do líder religioso) um "Pai Todo-Poderoso" que o proteja dos perigos da vida e lhe diga exatamente o que fazer.
O fanático é a criança que se recusa a crescer e encarar o desamparo da condição humana. Ele precisa de um Pai severo que puna os "inimigos" (aqueles que pensam diferente) para sentir que está seguro e que sua verdade é a única possível.
Essa estrutura gera violência. Como o fanático não tem estrutura interna para lidar com a diferença, qualquer questionamento é sentido como uma ameaça de morte à sua identidade. Se o outro discorda da minha crença, ele está atacando o meu Deus (e, por extensão, a mim). Logo, ele deve ser eliminado.
A verdadeira espiritualidade, ao contrário do fanatismo, convive com o mistério. Ela suporta a dúvida e entende que a fé é uma aposta, não uma certeza científica.
O amadurecimento espiritual acontece quando o sujeito deixa de buscar um Deus mágico que resolve seus problemas e passa a buscar uma ética de vida que o responsabilize por suas ações no mundo. Deixar de ser criança na fé é aceitar que Deus não é um guarda-costas particular, e que a vida exige coragem para ser vivida sem garantias absolutas.
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